Diferenças Quantitativas na Evolução de Homo sapiens, Outros Hominíneos e Primatas
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A Biologia da Mitocôndria
Estrutura, dinâmica, biogênese, miRNAs e impacto na saúde e longevidade
1. Origem Evolutiva e Resposta Imunológica +
As mitocôndrias possuem origem bacteriana (teoria endossimbiótica) e mantêm seu próprio genoma (mtDNA). Essa ancestralidade tem implicações diretas na imunologia celular (1)(2).
Mecanismo de Inflamação por mtDNA (ccf-mtDNA) +
1. Rompimento e Liberação ›
Em situações de estresse celular grave (isquemia, trauma, infecção viral), a integridade da membrana mitocondrial é comprometida. Isso pode ocorrer devido à peroxidação lipídica da cardiolipina (fosfolipídio da membrana interna) ou à abertura do poro de transição de permeabilidade (mPTP). Como resultado, o conteúdo da matriz mitocondrial, incluindo o DNA mitocondrial (mtDNA), vaza para o citosol. Se a célula lisa (necrose), esse mtDNA também é liberado na circulação sanguínea, tornando-se cell-free mtDNA (ccf-mtDNA) (2)(3).
2. Reconhecimento como PAMP ›
O sistema imune inato evoluiu para reconhecer padrões moleculares conservados em patógenos (PAMPs). O mtDNA compartilha características com o DNA bacteriano, especificamente a ausência de metilação em resíduos de CpG. O sistema imune detecta esse mtDNA “não metilado” como sinal de invasão bacteriana, ativando vias de sinalização em sinapses imunes (3)(4).
3. Ativação das Vias de Sinalização ›
Via TLR9: O mtDNA é endocitado e chega ao endossomo, onde se liga ao TLR9. Isso desencadeia a via MyD88, levando à ativação da quinase IKK (3)(5).
Via cGAS-STING: No citosol, o cGAS liga-se diretamente ao mtDNA de fita dupla. O cGAS catalisa a síntese de um segundo mensageiro cíclico chamado cGAMP. O cGAMP liga-se e ativa a proteína adaptadora STING (Stimulator of Interferon Genes) no Retículo Endoplasmático (5)(6).
4. Cascata NF-κB e Produção de Citocinas ›
Ambas as vias (TLR9 e cGAS-STING) convergem para a ativação de fatores de transcrição pró-inflamatórios. A quinase TBK1 (ativada pelo STING) e a quinase IKK (ativada pelo TLR9) fosforilam o inibidor IκBα. A fosforilação leva à degradação do IκBα, liberando o fator NF-κB para translocar ao núcleo. No núcleo, o NF-κB liga-se a promotores de genes inflamatórios, induzindo a produção massiva de citocinas como TNF-α, IL-1β e IL-6 (2)(5).
5. Consequências Clínicas ›
Níveis elevados de ccf-mtDNA são marcadores robustos de gravidade em sepse, trauma e COVID-19. Crônicamente, baixos níveis de liberação de mtDNA contribuem para o fenômeno de inflammaging (inflamação associada ao envelhecimento), onde um estado inflamatório de baixo grau persiste devido ao dano mitocondrial acumulado e falha na remoção (mitofagia) (7)(8).
Proteção pela Mitofagia +
1. Controle de Qualidade Pró-ativo ›
A mitofagia é um mecanismo de controle de qualidade essencial. Ela não é apenas uma resposta de limpeza, mas um sistema preventivo. Ao identificar mitocôndrias despolarizadas ou com membrana danificada antes que elas sofram ruptura completa (necrose), a célula sequestra essas organelas em autofagossomos. Isso impede a liberação de DAMPs (Padrões Moleculares de Dano Associados à Mitocôndria), como o mtDNA e a cardiolipina, no ambiente extracelular (9)(10).
2. Quebra do Ciclo Inflamatório ›
Quando a mitofagia falha (comum no envelhecimento), mitocôndrias disfuncionais acumulam-se. Essas mitocôndrias “zumbis” produzem níveis elevados de ROS (Espécies Reativas de Oxigênio). O excesso de ROS ativa o Inflamassoma NLRP3, uma plataforma multiprotéica que cliva a pro-IL-1β em sua forma ativa. Assim, a mitofagia eficiente quebra o ciclo de dano mitocondrial → ROS → Inflamação → Mais dano (8)(11).
2. Estrutura Mitocondrial +
Sistema de duas membranas que permite a compartimentalização essencial para a vida aeróbica e a homeostase celular (12)(13).
Membrana Externa (OMM) e MAMs +
1. Porosidade e VDAC ›
A Membrana Externa Mitocondrial (OMM) é altamente porosa devido à presença abundante de proteínas formadoras de poros chamadas VDAC (Voltage-Dependent Anion Channels). O VDAC permite a passagem livre de moléculas pequenas (até 5 kDa), como íons, metabolitos (ATP, ADP) e nutrientes, entre o citosol e o espaço intermembranar. Isso permite que a mitocôndria “respire” metabolicamente com o resto da célula (12)(14).
2. MAMs (Mitochondria-Associated Membranes) ›
A OMM estabelece contato físico íntimo com o Retículo Endoplasmático (RE) em regiões chamadas MAMs. Nesses locais, a distância entre as membranas é de apenas 10-30 nm. Essa estrutura é formada por pontes proteicas, envolvendo o VDAC na mitocôndria e o IP3R (Receptor de Inositol Trifosfato) no RE. Os MAMs funcionam como hubs de sinalização para transferência de cálcio, síntese de esteróis e regulação da dinâmica mitocondrial (15)(16).
3. Função no Tunelamento de Cálcio ›
Os MAMs permitem uma transferência altamente eficiente de cálcio (Ca2+). Quando o RE libera Ca2+ via IP3R, a proximidade mitocondrial cria um microdomínio com concentração de Ca2+ muito superior ao citosol geral. O MCU (Mitochondrial Calcium Uniporter) na membrana interna capta esse Ca2+. O Ca2+ na matriz ativa desidrogenases do Ciclo de Krebs (Piruvato Desidrogenase, Isocitrato Desidrogenase), aumentando a produção de NADH e ATP em resposta à demanda celular (15)(17).
Membrana Interna (IMM) e Cardiolipina +
1. Impermeabilidade e Gradiente ›
Ao contrário da OMM, a Membrana Interna (IMM) é impermeável à maioria dos íons e moléculas polares. Essa impermeabilidade é fundamental para manter o gradiente eletroquímico de prótons (força próton-motriz) gerado pela cadeia de transporte de elétrons. Sem essa barreira, a energia potencial dissipar-se-ia e a síntese de ATP pela ATP Sintase seria impossível (13)(18).
2. Cristas e Supercomplexos ›
A IMM possui invaginações chamadas cristas, que aumentam a área de superfície em até 5-10 vezes. Dentro das cristas, os complexos da cadeia respiratória (I a IV) não flutuam livremente; eles se organizam em estruturas estáveis chamadas Respirasomas ou supercomplexos. Isso permite que os elétrons “túnel” eficientemente entre os complexos, reduzindo o vazamento de elétrons e a formação de ROS (13)(19).
3. A Multifuncionalidade da Cardiolipina ›
A cardiolipina é um fosfolipídio aniônico exclusivo da mitocôndria, composto por quatro cadeias de ácidos graxos. Ela desempenha três papéis cruciais: (1) Estrutural: Sua forma cônica induz a curvatura negativa necessária para formar as cristas. (2) Funcional: Age como uma “cola” que mantém os supercomplexos unidos na membrana interna. (3) Armadilha de Prótons: Suas cabeças polares negativas retêm prótons (H+) na superfície da membrana, guiando-os para o canal da ATP Sintase (13)(20).
3. Dinâmica: Fusão, Fissão e Mitofagia +
A rede mitocondrial está em constante remodelagem para manter a homeostase e a integridade do genoma (1)(21).
Via da Mitofagia (PINK1/Parkin) +
1. Sinalização de Dano (PINK1) ›
Em uma mitocôndria saudável, a proteína PINK1 (PTEN-induced kinase 1) é importada para a matriz através dos complexos TIM/TOM, onde é rapidamente clivada e degradada. No entanto, se a mitocôndria sofre dano e perde o potencial de membrana (ΔΨm), a importação para. O PINK1 então se acumula na superfície externa da membrana (OMM), onde se autofosforila e se torna ativo (9)(22).
2. Recrutamento e Ativação do Parkin ›
O PINK1 ativo na OMM fosforila a ubiquitina já presente nas proteínas da membrana e também fosforila a E3 ubiquitina ligase citosólica Parkin. A fosforilação do Parkin causa uma mudança conformacional que a ativa. O Parkin é então recrutado para a OMM, onde se liga à ubiquitina fosforilada (9)(23).
3. Marcação para Degradação (Ubiquitinação) ›
Uma vez ancorado e ativo, o Parkin inicia uma reação em cascata de ubiquitinação em massa. Ele adiciona cadeias de ubiquitina (especificamente cadeias ligadas à Lysina 63) a várias proteínas da OMM, incluindo Miro, Mitofusinas (MFN1/2) e VDAC. Essas cadeias de ubiquitina funcionam como um sinal de “coma-me” (eat-me signal) para a maquinaria de autofagia (9)(24).
4. Engulfamento e Degradação ›
Proteínas adaptadoras de autofagia, como p62/SQSTM1 e OPTN, possuem domínios que reconhecem e ligam-se à ubiquitina na superfície mitocondrial. Simultaneamente, elas ligam-se à proteína LC3 na membrana do autofagossomo em formação. Isso conecta fisicamente a mitocôndria danificada ao autofagossomo. O autofagossomo se fecha e se funde com um lisossomo, onde enzimas hidrolíticas degradam a mitocôndria, reciclando aminoácidos e ácidos graxos (9)(25).
Fusão vs Fissão +
1. Fusão (MFN1/2 e OPA1) ›
A fusão permite a mistura de conteúdo entre mitocôndrias, diluindo mutações de mtDNA e distribuindo proteínas. Na membrana externa, as Mitofusinas 1 e 2 (GTPases) de duas mitocôndrias vizinhas interagem (homotipicamente ou heterotipicamente) e hidrolisam GTP para puxar as membranas juntas. Na membrana interna, a OPA1 (GTPase) promove a fusão das cristas. A fusão é crucial para manter a eficiência respiratória em células de alto consumo energético (1)(26).
2. Fissão (DRP1) ›
A fissão é necessária para a divisão celular e para isolar segmentos danificados. A proteína citosólica DRP1 (Dynamin-Related Protein 1) é recrutada para a OMM por receptores de adaptador como FIS1, MFF e MiD49/51. O DRP1 oligomeriza formando um anel em torno da mitocôndria. A hidrólise de GTP pelo DRP1 causa uma constrição mecânica que divide a organela em duas. O desequilíbrio em favor da fissão (comum em obesidade/estresse) leva a uma rede fragmentada e disfuncional (1)(27).
4. Funções Celulares e Apoptose +
Além de ATP, a mitocôndria controla o cálcio, sinalização epigenética e o destino celular (28)(29).
Cascata Apoptótica (Via Intrínseca) +
1. Estresse e Ativação de BH3-only ›
Sinais intracelulares de dano (DNA danificado, estresse oxidativo, privação de crescimento) ativam a transcrição de proteínas “apenas BH3” (como PUMA, NOXA, BIM) ou ativam proteínas já existentes (como tBID, clivado pela Caspase-8). Essas proteínas BH3 neutralizam as proteínas anti-apoptóticas (Bcl-2, Bcl-xL) e ativam as efetoras Bax e Bak(30)(31).
2. Translocação e Plataforma de Cardiolipina ›
As proteínas Bax/Bak normalmente residem no citosol ou na OMM. Quando ativadas, elas sofrem uma mudança conformacional e inserem-se na OMM. A Cardiolipina, que normalmente está na membrana interna, sofre um processo de externalização (“flip-flop”) para a OMM durante o início da apoptose. A cardiolipina na OMM atua como uma plataforma ou receptor específico, facilitando a inserção e oligomerização do Bax/Bak (30)(32).
3. Permeabilização da Membrana (MOMP) ›
Bax e Bak oligomerizam, formando grandes poros na Membrana Externa Mitocondrial (MOMP). A MOMP é o “ponto sem retorno” da apoptose. Como o espaço intermembranar tem uma concentração de proteínas muito maior que o citosol, há um gradiente de pressão osmótica. Uma vez que os poros se formam, o conteúdo do espaço intermembranar é expulso para o citosol (30)(33).
4. Liberação de Citocromo c e Formação do Apoptossomo ›
O Citocromo c, essencial para a cadeia respiratória, é liberado no citosol. Lá, ele se liga à proteína Apaf-1 (Apoptotic Protease Activating Factor-1). Na presença de ATP/dATP, o Citocromo c induz uma mudança conformacional no Apaf-1, que então oligomeriza formando uma estrutura em roda chamada Apoptossomo. O apoptossomo recruta e ativa a Caspase-9 iniciadora, que por sua vez cliva e ativa as caspases efetoras (Caspase-3 e -7), executando a morte celular (31)(34).
Sinalização por Succinato +
1. Acúmulo em Hipóxia ›
Em condições de hipóxia (baixo oxigênio), a cadeia respiratória para. O Succinato (intermediário do Ciclo de Krebs) se acumula na matriz mitocondrial porque a Succinato Desidrogenase (Complexo II) não pode oxidá-lo sem o aceptor final de elétrons (O2). O succinato é então exportado para o citosol através de transportadores específicos (35)(36).
2. Ativação de HIF-1α ›
No citosol, o succinato inibe as Proil-Hidroxilases (PHDs). Normalmente, as PHDs hidroxilam o fator de transcrição HIF-1α, marcando-o para degradação. Quando inibidas pelo succinato, o HIF-1α não é degradado e transloca para o núcleo. Lá, ele ativa genes de resposta à hipóxia, como VEGF (angiogênese) e GLUT1 (transporte de glicose) (36)(37).
5. Metabolismo Energético +
A mitocôndria é a central de energia da célula, integrando diferentes vias metabólicas para produção de ATP (35)(38).
Glicólise vs Fosforilação Oxidativa +
1. Glicólise Aeróbica (Efeito Warburg) ›
Células cancerígenas e células imunes ativadas preferencialmente convertem glicose em lactato, mesmo na presença de oxigênio. Isso gera apenas 2 ATP por glicose, mas produz intermediários biossintéticos (ribose, aminoácidos, lipídios) necessários para proliferação rápida. O PDK1 (Piruvato Desidrogenase Quinase 1) fosforila e inativa a PDH, desviando o piruvato da mitocôndria (35)(37).
2. Fosforilação Oxidativa (OXPHOS) ›
Em células diferenciadas e de longa vida, o piruvato entra na mitocôndria via MPC (Mitochondrial Pyruvate Carrier) e é convertido em Acetil-CoA pela Piruvato Desidrogenase (PDH). O Acetil-CoA entra no Ciclo de Krebs, gerando NADH e FADH2 que alimentam a cadeia respiratória. A OXPHOS gera ~30-32 ATP por glicose, sendo muito mais eficiente (38)(39).
Oxidação de Ácidos Graxos +
1. Importação e β-Oxidação ›
Ácidos graxos de cadeia longa são ativados no citosol (formando Acil-CoA) e transportados para a matriz via sistema Carnitina-Palmitoil Transferase (CPT1/CPT2). Na matriz, a β-oxidação cliva ciclicamente dois carbonos por vez, produzindo Acetil-CoA, NADH e FADH2. Um ácido graxo de 16 carbonos (palmitato) gera 106 ATP, tornando-se uma fonte de energia altamente densa (38)(40).
6. Biogênese Mitocondrial +
A biogênese mitocondrial é o processo de formação de novas mitocôndrias, essencial para adaptação metabólica e longevidade (26)(41).
Via PGC-1α/NRF1/TFAM +
1. PGC-1α como Regulador Mestre ›
O PGC-1α (Peroxisome Proliferator-Activated Receptor Gamma Coactivator 1-alpha) é um coativador transcricional induzido por estímulos como exercício, frio e jejum. Ele é ativado por desacetilação via SIRT1 (dependente de NAD+) e fosforilação via AMPK. O PGC-1α não se liga ao DNA diretamente, mas ativa fatores de transcrição como NRF1, NRF2 e ERRα (26)(41).
2. TFAM e a Replicação do mtDNA ›
O NRF1 (Nuclear Respiratory Factor 1) ativa a transcrição do gene TFAM (Mitochondrial Transcription Factor A). O TFAM é importado para a mitocôndria, onde se liga ao mtDNA e empacota-o em nucleoides. O TFAM é essencial tanto para a transcrição quanto para a replicação do mtDNA. Níveis de TFAM correlacionam-se diretamente com a massa mitocondrial (41)(42).
Coordenação Núcleo-Mitocondrial +
1. Expressão de Proteínas Mitocondriais ›
Embora a mitocôndria tenha seu próprio genoma, 99% das proteínas mitocondriais são codificadas no núcleo. A biogênese requer coordenação precisa: o núcleo deve transcrever genes para proteínas da matriz, membranas e espaços mitocondriais, enquanto o mtDNA codifica apenas 13 proteínas (todas subunidades da cadeia respiratória). Essa coordenação é mediada por fatores de transcrição nucleares sensíveis ao estado energético celular (42)(19).
7. Estresse Oxidativo e ROS +
As Espécies Reativas de Oxigênio (ROS) são subprodutos da respiração celular que, em desequilíbrio, causam dano oxidativo (7)(19).
Fontes de ROS Mitocondrial +
1. Complexo I e III como Principais Fontes ›
O Complexo I (NADH desidrogenase) e o Complexo III (Citocromo bc1) são os principais sítios de vazamento de elétrons. Cerca de 0.1-2% do oxigênio consumido é convertido em superóxido (O2•−). O superóxido é rapidamente convertido em peróxido de hidrogênio (H2O2) pela SOD2 (Superóxido Dismutase mitocondrial). O H2O2 pode ser detoxificado pela Glutationa Peroxidase ou, na presença de ferro, formar o altamente reativo radical hidroxila (•OH) (19)(18).
2. ROS como Sinalizadores ›
Em níveis moderados, o H2O2 atua como mensageiro. Ele oxida grupamentos tiol (-SH) de cisteínas em proteínas-alvo, modificando sua atividade. A oxidação de PTEN inativa este supressor tumoral, promovendo sinalização de crescimento. A oxidação de canais de cálcio regula sua abertura. Esse “redox signaling” é essencial para adaptação ao exercício e hipóxia (7)(11).
Danos e Defesas Antioxidantes +
1. Dano ao mtDNA ›
O mtDNA é particularmente vulnerável ao dano oxidativo. Ele está fisicamente próximo à fonte de ROS (membrana interna), carece de histonas protetoras e tem capacidade limitada de reparo. Mutações acumuladas em genes da cadeia respiratória prejudicam a produção de ATP, criando um ciclo vicioso: mais vazamento de elétrons → mais ROS → mais mutações (7)(8).
2. Sistema de Defesa Antioxidante ›
A mitocôndria possui um sistema robusto de defesa: SOD2 converte superóxido em H2O2; Glutationa Peroxidase (GPX) e Peroxiredoxinas (PRX) reduzem H2O2 a água usando glutationa (GSH) ou tioredoxina. A regeneração de GSH depende da Glutationa Redutase e NADPH. O fator de transcrição Nrf2 regula a expressão de enzimas antioxidantes em resposta ao estresse (11)(9).
8. Envelhecimento e Longevidade +
A disfunção mitocondrial é um dos pilares do envelhecimento, influenciando a saúde celular e a longevidade (7)(8).
Mitocondrias Disfuncionais no Envelhecimento +
1. Acúmulo de Mutações no mtDNA ›
Com o envelhecimento, mutações no mtDNA acumulam-se em diversos tecidos. A teoria da “mitocôndria viciosa” propõe que mutações na polimerase γ (POLG) ou na cadeia respiratória aumentam o vazamento de elétrons, gerando mais ROS que causam mais mutações. Embora a teoria seja simplista, a heteroplasmia (coexistência de mtDNA mutante e selvagem) aumenta com a idade e pode ultrapassar limiares patológicos (7)(35).
2. Declínio da Mitofagia e Inflammaging ›
A autofagia, incluindo a mitofagia, declina com a idade. O resultado é o acúmulo de mitocôndrias disfuncionais “senescentes” que produzem ROS elevado e liberam mtDNA. Isso alimenta o inflammaging — a inflamação crônica de baixo grau característica do envelhecimento. A ativação crônica do inflamassoma NLRP3 por mitocôndrias danificadas é um importante contribuidor para esse fenótipo (8)(11).
Intervenções Pró-Longevidade +
1. Restrição Calórica e Sirtuinas ›
A restrição calórica (sem desnutrição) estende a vida útil em diversos organismos. Um mecanismo central é o aumento da razão NAD+/NADH, que ativa as Sirtuinas. A SIRT1 desacetila e ativa PGC-1α e FOXO, promovendo biogênese mitocondrial e defesa antioxidante. A SIRT3, mitocondrial, desacetila enzimas como a SOD2, aumentando a capacidade antioxidante (26)(41).
2. Exercício e Remodelamento Mitocondrial ›
O exercício aeróbico é um potente indutor de biogênese mitocondrial. A contração muscular ativa AMPK (por aumento de AMP) e CaMK (por fluxo de cálcio), ambas ativando PGC-1α. O resultado é aumento da massa mitocondrial, eficiência respiratória e capacidade oxidativa. Exercício também promove a limpeza de mitocôndrias danificadas via mitofagia, melhorando a qualidade da rede (38)(40).
9. Doenças Mitocondriais +
Disfunções mitocondriais estão na base de diversas patologias, desde doenças genéticas raras até condições comuns (28)(22).
Doenças Neurodegenerativas +
1. Doença de Alzheimer ›
A doença de Alzheimer está associada a déficits mitocondriais. O peptideo β-amiloide (Aβ) se acumula nas mitocôndrias, inibindo o Complexo IV e aumentando a produção de ROS. A proteína tau hiperfosforilada também prejudica o transporte mitocondrial ao longo dos axônios. O resultado é despolarização mitocondrial, falha energética e vulnerabilidade neuronal à morte (28)(29).
2. Doença de Parkinson ›
A DP está fortemente ligada à disfunção mitocondrial. Mutações em PINK1 e Parkin causam formas hereditárias da doença, comprometendo a mitofagia. Toxinas como MPTP e rotenona (inibidores do Complexo I) induzem parkinsonismo. A α-sinucleína agregada interfere com a função mitocondrial. Neurônios dopaminérgicos da substância negra são particularmente vulneráveis devido ao seu alto metabolismo (22)(24).
Síndromes Mitocondriais Primárias +
1. MELAS, MERRF e LHON ›
As síndromes mitocondriais clássicas resultam de mutações no mtDNA. MELAS (Mitochondrial Encephalomyopathy, Lactic Acidosis, and Stroke-like episodes) é causada pela mutação m.3243A>G no gene tRNA. MERRF (Myoclonic Epilepsy with Ragged Red Fibers) pela mutação m.8344A>G. LHON (Leber Hereditary Optic Neuropathy) afeta o nervo óptico e é causada por mutações em genes do Complexo I. A heteroplasmia determina a gravidade (25)(17).
10. Saúde Metabólica e Obesidade +
A obesidade e a resistência à insulina estão associadas a alterações na função mitocondrial (38)(40).
Mitocondrias no Tecido Adiposo +
1. Gordura Marrom vs Gordura Branca ›
O tecido adiposo marrom (BAT) é rico em mitocôndrias e especializado em termogênese. A proteína UCP1 (Uncoupling Protein 1) na membrana interna desacopla a respiração da síntese de ATP, dissipando energia como calor. O tecido adiposo branco (WAT) armazena energia. A “beinificação” — conversão de adipócitos brancos em marrom-like — é uma estratégia terapêutica contra obesidade, ativável por frio e exercício (38)(40).
2. Resistência Insulínica e Lipotoxicidade ›
Na obesidade, o influxo excessivo de ácidos graxos para o músculo e fígado sobrecarrega a capacidade oxidativa mitocondrial. Intermediários lipídicos como diacilgliceróis e ceramidas acumulam-se, ativando quinases (PKCθ, JNK) que fosforilam o receptor de insulina em serinas, inibindo sua sinalização. A disfunção mitocondrial também gera ROS que promove inflamação crônica, agravando a resistência insulínica (38)(40).
11. miRNAs e Disfunção Mitocondrial +
MicroRNAs (miRNAs) são pequenos RNAs não-codificantes que regulam a expressão gênica pós-transcricionalmente, desempenhando papéis cruciais na homeostase mitocondrial (31)(2).
Biogênese & Metabolismo Mitocondrial +
Regulação da Biogênese Mitocondrial ›
miR-762 → Suprime a expressão de ND2 (subunidade do Complexo I), comprometendo a respiração celular e aumentando a produção de ROS (34).
miR-181c → Regula negativamente o MTCO1 (citocromo c oxidase, Complexo IV), afetando a eficiência da fosforilação oxidativa (14).
miR-338-3p → Direciona-se à mitocôndria e regula Cytochrome c oxidase IV, modulando a atividade do Complexo IV (18).
miR-210 → “Hypoxamir” — induzido em hipóxia, suprime componentes do Complexo I (NDUFA4) e II (SDHD), contribuindo para a reprogramação metabólica (35).
Controle do Metabolismo Energético ›
miR-378/378* → Regula o metabolismo de ácidos graxos e a biogênese mitocondrial através da modulação de MED13 e CPT1(40).
miR-106b → Suprime Mfn2, afetando a fusão mitocondrial e o metabolismo de glicose (1).
miR-149 → Regula PGC-1α, o mestre regulador da biogênese mitocondrial, afetando a capacidade oxidativa celular (26).
Dinâmica Mitocondrial (Fusão/Fissão) +
Reguladores da Fusão Mitocondrial ›
miR-27a/b → Suprime Mfn1 e Mfn2 (Mitofusinas), promovendo fragmentação mitocondrial em cardiomiócitos (1).
miR-30家族 → Regula OPA1, afetando a fusão da membrana interna e a morfologia das cristas (27).
miR-421 → Suprime Mfn2, contribuindo para disfunção mitocondrial em modelos de cardiomiopatia (26).
miR-34a → Suprime Parkin e Bcl-2, comprometendo a mitofagia e aumentando a vulnerabilidade apoptótica (9).
miR-137 → Regula Mfn1 e Mfn2, impactando a dinâmica mitocondrial em neurônios (22).
Cadeia Respiratória (OXPHOS) +
miRNAs que Regulam Complexos I-IV ›
Complexo I: miR-762 (ND2), miR-210 (NDUFA4), miR-34a (NDUFB8) — reduzem a atividade do complexo I e aumentam ROS (34)(35).
Complexo II: miR-210 (SDHD), miR-31 (SDHA) — comprometem o fluxo de elétrons do succinato (36).
Complexo III: miR-663 (UQCRB), miR-210 (UQCRFS1) — afetam a transferência de elétrons para o citocromo c (19).
Complexo IV: miR-181c (MTCO1), miR-338-3p (COXIV) — reduzem a oxidação do citocromo c e a eficiência respiratória (14)(18).
ATP Sintase e Homeostase Energética ›
miR-1275 → Regula ATP5O (subunidade da ATP Sintase), modulando a produção de ATP (20).
miR-181c → Afeta a montagem da ATP Sintase através da regulação do mtATP6(14).
Neurodegeneração (AD/PD) +
Doença de Alzheimer e miRNAs Mitocondriais ›
miR-29a/b → Níveis reduzidos em AD; perda leva à acumulação de β-amiloide via desregulação de BACE1 (28).
miR-34a → Aumentado em AD; suprime SIRT1 e compromete a biogênese mitocondrial (29).
miR-132 → Significativamente reduzido em AD; regula PINK1 e afeta a mitofagia neuronal (22).
Doença de Parkinson e miRNAs Mitocondriais ›
miR-34a → Suprime Parkin, comprometendo a mitofagia e a limpeza de mitocôndrias danificadas (24).
miR-27b → Regula PINK1; desregulação afeta a via de mitofagia PINK1/Parkin (25).
miR-124 → Neuroprotetor; promove a expressão de Parkin e melhora a função mitocondrial em modelos de DP (22).
Biomarcadores/Terapêuticos Emergentes +
miRNAs como Biomarcadores de Disfunção Mitocondrial ›
miR-122 → Biomarcador de disfunção mitocondrial hepática; elevado em NAFLD e esteato-hepatite (2).
miR-210 → Biomarcador de hipóxia e disfunção mitocondrial; elevado em isquemia cardíaca e câncer (37).
miR-378 → Associado ao metabolismo mitocondrial; potencial biomarcador de disfunção metabólica (40).
Terapias Baseadas em miRNA (miRNA Therapeutics) ›
AntagomiRs: Oligonucleotídeos antisenso que inibem miRNAs específicos. AntagomiR-34a em desenvolvimento para restaurar mitofagia em doenças neurodegenerativas (31).
miRNA Mimics: Moléculas sintéticas que restauram miRNAs perdidos. miR-132 mimic em investigação para AD (22).
Exossomos como Veículos: Exossomos derivados de células-tronco carregando miRNAs terapêuticos para restaurar função mitocondrial (6).
Conteúdo acadêmico interativo sobre Biologia Mitocondrial
1. Energia como eixo estruturante da complexidade cerebral
A complexidade funcional do cérebro humano não decorre exclusivamente de aumento volumétrico ou modificações genômicas pontuais.
Evidências comparativas sugerem que ampliações quantitativas na organização energética — particularmente no grau de integração entre núcleo e mitocôndrias ao longo da linhagem dos primatas — contribuíram para sustentar demandas metabólicas crescentes (1,2). Em humanos, o cérebro representa um órgão de custo metabólico excepcional, sustentado não por mecanismos únicos, mas por refinamentos evolutivos em regulação epigenética, distribuição mitocondrial e sinalização metabólica já presentes em ancestrais primatas (3).
Os moldes endocranianos fornecem informações sobre a anatomia cerebral e a vascularização de espécies de hominídeos extintos
Evidências sobre seu comportamento podem ser obtidas a partir do registro arqueológico. Esses dados podem ser interpretados integrando DNA antigo com novos métodos experimentais em múltiplas escalas (por exemplo, biologia celular, anatomia, genética e organoides). From fossils to mind; Alexandra A. de Sousa e. al.: Review Article, Open access; Published: 13 June 2023; https://www.nature.com/articles/s42003-023-04803-4
2. Continuidade evolutiva e diferenciação entre primatas, hominídeos e Homo sapiens
Muitas das adaptações energéticas observadas no cérebro humano não surgem de forma abrupta
Representam o ápice de tendências já presentes ao longo da linhagem evolutiva. Torna-se, portanto, conceitualmente necessário distinguir entre características compartilhadas por primatas, aquelas acentuadas em hominídeos e aquelas que atingem grau particular em Homo sapiens.
Fugira 2. Usando multifônica e aprendizado de máquina, mapeamos as assinaturas transcriptômicas , epigenômicas e genéticas
Os mecanismos graduais e consistentes que impulsionam a evolução dos astrócitos. Com oaumento do gasto metabólico do cérebro humano, a evolução dos astrócitos fetais envolve o ganho na expressão de genes que regulam a produção e o consumo de energia, incluindo a proteína ribossômica mitocondrial S7 ( MRPS7 ), as ATP sintases 6 e 8 codificadas mitocondrialmente e fatores implicados na sinalização lipídica. . Molecular signature of primate astrocytes reveals pathways and regulatory changes contributing to human brain evolution; Katarzyna Ciuba et. at.; Volume 32, Issue 3, 6 March 2025, Pages 426-444.e14; https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1934590924004582
Em primatas, observa-se um metabolismo oxidativo cerebral relativamente mais eficiente quando comparado a mamíferos não primatas
Incluindo maior capacidade de transporte axonal de mitocôndrias e adaptação bioenergética sináptica (4). Em humanos, o cérebro mantém densidade neuronal proporcional à observada em outros primatas, mas com aumento absoluto no número total de neurônios corticais devido à expansão volumétrica cortical (5). Essas características estruturais são acompanhadas por padrões específicos de expressão gênica e regulação epigenética, incluindo genes relacionados à função mitocondrial, que distinguem o cérebro humano de outros grandes primatas (6).
3. Metabolismo energético diferenciado no cérebro humano
3.1. Focando nas mitocôndrias no cérebro.
O cérebro possui uma demanda metabólica extremamente alta. Ele utiliza aproximadamente 20% do consumo total de oxigênio e glicose do corpo, representando apenas 2% do seu peso. Cerca de 70% do gasto energético calculado é utilizado para sustentar a sinalização neuronal
O cérebro humano contém quase 100 bilhões de neurônios. Cada neurônio está conectado a até 10.000 outros neurônios, trocando sinais por meio de até 1.000 trilhões de sinapses
Como mencionado anteriormente, o cérebro possui uma demanda metabólica extremamente alta. Ele utiliza aproximadamente 20% do consumo total de oxigênio e glicose do corpo, representando apenas 2% do seu peso. Cerca de 70% do gasto energético calculado é utilizado para sustentar a sinalização neuronal, incluindo potenciais de repouso, potenciais de ação, ativação de receptores pós-sinápticos, ciclagem do glutamato e sinalização de Ca2 + pós-sináptica , enquanto o restante se destina a atividades não relacionadas à sinalização, como a renovação de biomacromoléculas, o transporte axonal, o vazamento de prótons mitocondriais e a remodelação do citoesqueleto de actina. Os neurônios são responsáveis pela maior parte do consumo de energia. Eles geram ATP predominantemente dentro das mitocôndrias por meio da fosforilação oxidativa (OXPHOS), com uma pequena porção de ATP proveniente da glicólise aeróbica no citoplasma. Os astrócitos são altamente glicolíticos e transformam a glicose em lactato com baixo consumo de oxigênio; o lactato é então transportado para os neurônios para oxidação completa. Este processo supre em grande parte as necessidades energéticas neuronais, fornecendo substratos metabólicos . Os oligodendrócitos também obtêm ATP principalmente por glicólise aeróbica. Eles utilizam lactato para suas próprias necessidades energéticas e também fornecem lactato aos axônios vizinhos. A microglia é predominantemente alimentada por fosforilação oxidativa (OXPHOS), mas é metabolicamente reprogramada para um fenótipo predominantemente glicolítico aeróbico sob certas circunstâncias neurológicas. As características metabólicas do cérebro mudam com a idade. Ao longo da vida humana, a utilização de glicose pelo cérebro atinge o pico entre os 4 e 5 anos de idade, predominantemente na forma de glicólise aeróbica. Relata-se que esse alto nível de glicólise aeróbica na fase de desenvolvimento da vida sustenta a biossíntese máxima de lipídios para o crescimento de neuritos. O envelhecimento normal induz uma diminuição global no metabolismo cerebral, com a redução da captação de glicose excedendo a redução do consumo de oxigênio, o que implica na perda da glicólise aeróbica cerebral. O metabolismo oxidativo da glicose é relativamente estável e persiste para sustentar a transmissão sináptica.
3.1.2. Equilíbrio entre a geração e a eliminação de ROS (espécies reativas de oxigênio).
As mitocôndrias são equipadas com poderosos sistemas de defesa antioxidante, necessários para a homeostase redox cerebral. Estima-se que um terço das enzimas antioxidantes celulares (glutationa peroxidase e catalase) residam nas mitocôndrias, e a superóxido dismutase dependente de manganês (Mn-SOD ou SOD2) está localizada exclusivamente nas mitocôndrias. As mitocôndrias também contêm 10% a 15% da glutationa celular total (GSH), o antioxidante não enzimático mais abundante com um tiol redox-ativo. Existem também outros antioxidantes localizados nas mitocôndrias que são essenciais para o controle da homeostase de ROS no cérebro, incluindo a peroxirredoxina 3 (PDRX3), que contribui para a maior parte da redução do peróxido de hidrogênio nas mitocôndrias e está intimamente relacionada com a terapêutica do glioblastoma; PDRX5, que protege contra ROS mitocondrial e previne a morte de neurônios hipocam; e tiorredoxina 2, uma proteína redox específica da mitocôndria, cuja mutação de parada homozigótica é relatada como indutora de neurodegeneração de início infantil em um adolescente de 16 anos
3.1.3.Genoma independente, funções exclusivas e suscetibilidade à mutagênese
O DNA mitocondrial (mtDNA) é uma estrutura circular de fita dupla. Cada mitocôndria abriga de 10 a 10.000 cópias de mtDNA, em contraste com o DNA nuclear (nDNA), que contém apenas duas cópias por célula. Os genomas mitocondriais são organizados com fatores como o fator de transcrição mitocondrial A (TFAM), em estruturas de mtDNA-proteína chamadas nucleoides para empacotamento, transcrição e replicação de genes. O mtDNA contém 37 genes, que codificam 13 proteínas essenciais da cadeia respiratória mitocondrial, bem como 22 RNAs de transferência e 2 RNAs ribossômicos para a função dos ribossomos mitocondriais.
3.1.4. Dinâmica de membranas
As mitocôndrias são circundadas por um sistema de membrana bicamada. A membrana mitocondrial externa (MME) serve como plataforma para trocas moleculares com compartimentos subcelulares. A membrana mitocondrial interna (MMI) delimita a matriz mitocondrial e é subdividida em membrana de contorno interna (MCI) e cristas. A MCI abriga diversos transportadores de canais que transportam íons, ATP, ADP e pequenos metabólitos. As cristas são invaginações em direção à matriz e abrigam a maquinaria necessária para a respiração mitocondrial. A membrana mitocondrial apresenta um alto grau de variabilidade morfológica, com constante remodelação para coordenar diversas funções celulares. É importante notar que, com a dinâmica da membrana, as mitocôndrias estão envolvidas em extensas interações intracelulares com outras organelas.
Os sítios de contato entre mitocôndrias e retículo endoplasmático (RE) são o tipo de contato de membrana mais bem estudado, atuando na sinalização de cálcio e na homeostase lipídica. O RE e a membrana mitocondrial externa (MME) formam contatos estreitos através de microdomínios ricos em colesterol, chamados membranas do RE associadas às mitocôndrias (MAMs). As abundantes enzimas sintetizadoras de lipídios nas MAMs promovem a síntese de lipídios, especialmente fosfatidiletanolamina, o principal fosfolipídio das membranas celulares. Portanto, o acoplamento orquestrado entre o RE e as mitocôndrias é crucial para a sinalização de cálcio e o equilíbrio de fosfolipídios.
3.2. Transporte Mitocondrial
Estudos comparativos de metabolismo cerebral sugerem que humanos apresentam padrões energéticos distintivos em escala, mas não necessariamente em natureza
Embora dados ultraestruturais diretos de densidade mitocondrial neuronal comparativa entre espécies permaneçam limitados, evidências indiretas — maior consumo de glicose cortical, expressão diferencial de genes de fosforilação oxidativa e atividade sináptica basal elevada — são compatíveis com uma ampliação quantitativa do investimento em capacidade oxidativa neuronal, especialmente em regiões associativas (7,8).
Figura 3. Diagrama esquemático dos motores de transporte mitocondrial em neurônios. As mitocôndrias atuam como “geradoras”, produzindo mais de 90% da energia necessária para o funcionamento normal dos neurônios
São essenciais para o metabolismo e a conversão de bioenergia, também desempenham um papel fundamental em outros processos celulares, como metabolismo de neurotransmissores, a regulação precisa do transporte para garantir que as mitocôndrias possam ser entregues e localizadas nas áreas onde são necessárias. Mitochondrial transport in neurons and evidence for its involvement in acute neurological disorders; Front. Neurosci., 11 October 2023; Dengfeng Lu et. al.; https://www.frontiersin.org/journals/neuroscience/articles/10.3389/fnins.2023.1268883/full
Essas características refletem a necessidade de sustentar atividade sináptica basal elevada, integração de redes distribuídas e plasticidade sináptica prolongada, particularmente em regiões de desenvolvimento tardio, como o córtex pré-frontal (9).
As alterações metabólicas perturbam a interação entre mitocôndrias e outras organelas e, por outro, que a deficiência de proteínas envolvidas na ligação entre mitocôndrias e o retículo endoplasmático (RE) ou em funções específicas da interação leva a alterações metabólicas em diversos tecidos; https://www.embopress.org/doi/full/10.15252/embr.201947928.
4. Demanda energética comparativa do cérebro humano
O cérebro humano consome aproximadamente 20% da energia total do organismo, apesar de representar cerca de 2% da massa corporal (10). Estudos comparativos sugerem que o consumo energético cerebral relativo em chimpanzés e outros grandes primatas é significativamente menor (estimativas indiretas sugerem 8–13%), embora medições diretas precisas sejam escassas na literatura (11).
Essa desproporção energética resulta da combinação de maior densidade sináptica, atividade sináptica basal elevada, manutenção contínua de circuitos plásticos e integração simultânea de múltiplas redes funcionais. Do ponto de vista evolutivo, esse cenário impôs pressão seletiva não apenas sobre a capacidade mitocondrial em si, mas sobretudo sobre os mecanismos nucleares que regulam a função mitocondrial.
5. Regulação epigenética nuclear da função mitocondrial
Embora a mitocôndria possua genoma próprio, este codifica apenas 37 genes. Em contraste, aproximadamente 1.500 genes nucleares codificam proteínas mitocondriais, representando cerca de 99% do proteoma mitocondrial (12). Esse arranjo estabelece um princípio central: a mitocôndria é, funcionalmente, programada pelo núcleo.
Figura 5. Sinalização da mitocôndria para o núcleo. Quando as mitocôndrias evoluíram de endossimbiontes para organelas, sofreram uma redução genômica massiva. A maior parte do genoma das mitocôndrias ancestrais foi transferida para o núcleo do hospedeiro e integrada ao genoma eucariótico, mais de 95% das proteínas mitocondriais são codificadas pelo DNA nuclear, estudos mais recentes têm demonstrado o papel de RNAs não codificantes (ncRNAs). Nuclear-Mitochondrial Interactions; Brittni R. Walker et. al. ; Biomolecules2022, 12(3), 427; https://doi.org/10.3390/biom12030427
Essa programação ocorre por meio de mecanismos epigenéticos que regulam a expressão de genes nucleares envolvidos na biogênese, dinâmica e função mitocondrial (13). O coativador PGC-1α atua como regulador central desse processo, integrando sinais metabólicos, hormonais e neurais. Sua atividade é modulada por metilação de DNA, modificações de histonas e microRNAs, permitindo ajustes finos da capacidade oxidativa neuronal (14,15). Fatores de transcrição como NRF1 e NRF2 controlam a expressão de componentes da cadeia respiratória e apresentam sensibilidade direta ao estado epigenético nuclear (16).
MicroRNAs mitonucleares, como miR-181c e miR-338, regulam subunidades da cadeia transportadora de elétrons. Em humanos, esses microRNAs exibem padrões de expressão diferenciados no córtex cerebral, sugerindo um nível adicional de controle pós-transcricional da função mitocondrial (17).
6. Metabolismo mitocondrial diferencial em humanos
Análises transcriptômicas e proteômicas comparativas entre humanos e chimpanzés sugerem aumento na expressão de genes associados à fosforilação oxidativa no córtex humano, particularmente em regiões associativas (18,19). No entanto, é importante reconhecer que esses achados apresentam variabilidade conforme a região cortical, idade dos indivíduos, método analítico empregado e podem refletir tanto adaptação direta quanto deriva evolutiva neutra.
Esses resultados devem ser interpretados com cautela como tendências contextuais, e não como constantes biológicas universais. Ainda assim, são compatíveis com a noção de maior eficiência energética neuronal em humanos, possivelmente sustentada por níveis elevados de expressão de genes nucleares mitocondriais. O fator TFAM, essencial para replicação e transcrição do DNA mitocondrial, exemplifica esse padrão regulatório (20).
6.1 Plasticidade ambiental da co-regulação nuclear–mitocondrial
A co-regulação nuclear–mitocondrial no cérebro humano não constitui um sistema rigidamente programado, mas um eixo altamente plástico, sensível a sinais ambientais ao longo da vida. Fatores como dieta, atividade física, estresse psicossocial e ciclos de disponibilidade energética modulam diretamente a paisagem epigenética de genes nucleares mitocondriais.
Intervenções metabólicas, como restrição calórica ou jejum intermitente, aumentam a razão NAD⁺/NADH, promovendo ativação de sirtuínas e coativadores como PGC-1α, com impacto direto na biogênese mitocondrial e na eficiência oxidativa neuronal (21). De modo semelhante, o exercício físico induz modificações epigenéticas em promotores de genes mitocondriais, aumentando a capacidade energética cerebral e a resiliência sináptica (22).
Essa plasticidade confere ao cérebro humano notável capacidade adaptativa, mas também o torna vulnerável a ambientes cronicamente desregulados, nos quais sinais metabólicos e epigenéticos operam fora de sua faixa fisiológica.
7. Comunicação retrógrada mitocôndria → núcleo
A relação entre núcleo e mitocôndria é bidirecional. Metabólitos produzidos pela mitocôndria atuam como sinalizadores epigenéticos nucleares, modulando diretamente a expressão gênica (23). Entre os principais mediadores destacam-se o α-cetoglutarato, cofator de demetilases de DNA, o acetil-CoA, substrato para acetilação de histonas, e a razão NAD⁺/NADH, reguladora da atividade das sirtuínas (24,25).
Espécies reativas de oxigênio, quando mantidas em níveis controlados, funcionam como mensageiros adaptativos, modulando fatores de transcrição sensíveis ao estado redox celular (26).
Embora existam relatos de modificações epigenéticas no DNA mitocondrial, como metilação de citosinas, a existência e relevância funcional de um “metiloma mitocondrial” permanecem controversas. O entendimento mais robusto situa a regulação epigenética da função mitocondrial predominantemente no nível nuclear (13).
8. Dinâmica mitocondrial, envelhecimento e vulnerabilidade humana
O proteoma mitocondrial humano apresenta expansão funcional em proteínas relacionadas à fusão e fissão mitocondrial, captação de cálcio e adaptação ao estresse metabólico, aspectos críticos em neurônios de alta atividade sináptica (27).
O DNA mitocondrial evolui em taxas mais rápidas que o DNA nuclear. Padrões de variação do mtDNA são compatíveis com — mas não provam diretamente — adaptação às elevadas demandas energéticas cerebrais humanas, uma vez que tais variações podem refletir adaptações periféricas (músculo, termogênese) ou processos evolutivos neutros (28,29). Independentemente da causa, o ganho em capacidade metabólica parece ocorrer ao custo de maior vulnerabilidade a mutações acumulativas, com impacto desproporcional no envelhecimento cerebral e em doenças neurodegenerativas.
9. Síntese conceitual
O cérebro humano evoluiu mediante ampliação quantitativa e refinamento de um sistema de co-regulação energética nuclear-mitocondrial já presente em primatas. Nesse processo, mecanismos epigenéticos nucleares ajustaram com maior precisão a função mitocondrial, enquanto metabólitos mitocondriais modularam a paisagem epigenética nuclear com maior amplitude dinâmica. Energia, epigenética, ambiente e cognição tornam-se, assim, dimensões inseparáveis da biologia cerebral humana — não por inovação qualitativa única, mas por intensificação de um eixo regulatório ancestral (30).
Referências
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