A EVOLUÇÃO EPIGENÉTICA DO CÉREBRO HUMANO

Figura 1 — “Mesmos genes, diferentes expressões”.
Diferenças em padrões de metilação do DNA em regiões regulatórias do genoma cerebral entre humanos e outros primatas. Essas variações não alteram o repertório gênico, mas modulam a expressão potencial de genes amplamente conservados, configurando condições permissivas para diferenças funcionais observadas entre espécies.
Adaptado de Mendizabal I, Keller TE, Zeng J, Yi SV.
Comparative methylome analyses identify epigenetic regulatory loci of human brain evolution. Molecular Biology and Evolution (2016).
https://doi.org/10.1093/molbev/msw176 https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5062329/
Contexto:
À luz desses novos conhecimentos, tornou-se possível reformular a pergunta “como o cérebro do Homo sapiens evoluiu?” a partir de uma abordagem ampliada. O foco deixou de recair exclusivamente sobre diferenças anatômicas ou sobre a identificação de genes estruturais específicos, deslocando-se para uma linha de investigação complementar: compreender a evolução do cérebro humano por meio da comparação com outros primatas antropoides, integrando genética estrutural, mecanismos de regulação epigenética e metabolismo energético (1)
Nota metodológica:
Considerando as limitações inerentes à comparação entre Homo sapiens e outros primatas, é fundamental reconhecer que tais relações não representam inferências diretas sobre estados ancestrais, mas constituem uma opção metodológica comparativa. Humanos e primatas atuais são espécies modernas, com trajetórias evolutivas próprias, ainda que compartilhem ancestrais comuns. Como dados genéticos e epigenéticos diretos de ancestrais como Homo erectus e outros hominíneos não estão disponíveis, a comparação entre espécies viventes representa uma abordagem pragmática para explorar hipóteses sobre a evolução regulatória do cérebro humano, desde que seus limites interpretativos sejam explicitamente reconhecidos. Essas comparações devem ser compreendidas como contrastes funcionais entre espécies modernas, utilizados como ferramenta heurística com limites bem definidos.
Introdução:
O advento da era dos dados ômicos e a evolução do cérebro humano
A era dos dados ômicos — genômica, transcriptômica, epigenômica e metabolômica — marcou uma transformação profunda na biologia contemporânea. Pela primeira vez, tornou-se possível observar sistemas biológicos em múltiplas camadas simultâneas, revelando padrões regulatórios que não eram acessíveis por abordagens reducionistas clássicas, nem pelos métodos tradicionais de comparação anatômica ou paleoetológica (o estudo inferencial do comportamento de espécies extintas a partir de evidências fósseis e contextuais) (1).
“Mesmos genes, diferentes expressões”
Comparações genômicas extensas demonstram que humanos e outros primatas compartilham a maior parte de seu repertório genético (1). O número de genes verdadeiramente exclusivos da linhagem humana é relativamente pequeno, especialmente quando comparado à magnitude das diferenças cognitivas e comportamentais observadas (2), dependendo da metodologia empregada.
A regulação dos genes como caminho da evolução

FiIgura 2. Desenvolvimento cortical humano. (A) Estágios de neurogênese e zonas progenitoras durante o desenvolvimento neocortical humano. (B) Regiões aceleradas humanas (HARs). As HARs são regiões regulatórias que sofreram alterações evolutivas recentes que podem modificar os perfis de expressão de certos genes.
Neocortical neurogenesis: a proneural gene perspective; Jun 2025; Lakshmy Vasan et. al.; https://www.researchgate.net/publication/392919110_Neocortical_neurogenesis_a_proneural_gene_perspective
Ao longo da evolução, mecanismos epigenéticos, em modelos comparativos e experimentais, podem ter desempenhado um papel desproporcional na reorganização funcional de genes amplamente conservados, modulando níveis de expressão, temporalidade e integração em redes metabólicas e neurais (3, 4).
Essa hipótese sugere que a inovação evolutiva humana pode ter ocorrido predominantemente por reconfiguração regulatória, e não por expansão genética estrutural, reforçando o papel central da epigenética como eixo explicativo da evolução do cérebro humano (4,5).
Embora não fabriquem proteínas, essas regiões regulatórias exercem um papel central na coordenação de redes gênicas complexas funcionais, especialmente em tecidos altamente especializados como o cérebro (5).

Figura 3. Uma visão geral integrada da ampla gama de mecanismos celulares que contribuem para a evolução do cérebro dos primatas e dos humanos. Em conjunto, o amplo escopo dessas ilustrações implica o envolvimento de múltiplos níveis de processos celulares nos processos adaptativos humanos. Marcas epigenéticas restringem o acesso ao genoma que, quando acessível, é transcrito em RNAs, dos quais um subconjunto é traduzido em proteínas.
Artigo: Reilly SK, Noonan JP. Multiple Innovations in Genetic and Epigenetic Mechanisms Cooperate to Underpin Human Brain Evolution.
Molecular Biology and Evolution. 2018;35(2):263-268.
DOI:10.1093/mbe/msx306 https://academic.oup.com/mbe/article/35/2/263/4644722
Neurotransmissores, receptores e especialização funcional do cérebro humano
Ao longo da evolução, o cérebro humano não desenvolveu novos neurotransmissores fundamentais. Os principais sistemas neuroquímicos — dopamina, serotonina, noradrenalina, GABA, glutamato e opioides — já estavam presentes em outros primatas. A singularidade humana emerge, portanto, não da invenção de novos sistemas químicos, mas da forma como esses sistemas passaram a ser regulados, distribuídos e integrados em redes cerebrais progressivamente mais extensas, densas e complexas.
As diferenças mais relevantes entre humanos e outros primatas manifestam-se sobretudo no perfil de expressão gênica, na densidade regional dos receptores, no tempo de maturação dos sistemas neurotransmissores e na variabilidade genética associada aos receptores e transportadores. Essas diferenças regulatórias e temporais têm consequências funcionais importantes, influenciando cognição, comportamento, adaptação ao ambiente e vulnerabilidade clínica.
Obs.: Embora os efeitos de polimorfismos genéticos em receptores e transportadores sejam geralmente pequenos em nível individual, seu impacto pode tornar-se relevante em nível populacional. Essas variantes não possuem valor diagnóstico isolado e devem ser interpretadas apenas no contexto de modelos multifatoriais.
1 Sistema dopaminérgico: motivação, controle e variabilidade comportamental
Os cinco subtipos de receptores dopaminérgicos (D1–D5) são estruturalmente altamente conservados entre primatas, refletindo o papel central da dopamina na motivação, no aprendizado por reforço e no controle motor. No cérebro humano, contudo, diferenças regulatórias e genéticas estão associadas a maior variabilidade funcional desse sistema, especialmente em circuitos relacionados à motivação, ao controle executivo e à adaptação comportamental (6).

Figura 4. Relationships between Mitochondrial Dysfunction and Neurotransmission Failure in Alzheimer’s Disease; Kan Yin Wong1, Aging and disease ›› 2020, Vol. 11 ›› Issue (5) : 1291-1316. DOI: 10.14336/AD.2019.1125 https://www.aginganddisease.org/EN/10.14336/AD.2019.1125
Figura 4. Relações entre disfunções mitocondriais e vias dopaminérgicas.
- COMT, catecol-O-metiltransferase; cit c, citocromo c;
- DA, dopamina;
- D1R, receptor de dopamina 1;
- D2R, receptor de dopamina 2;
- DAT, transportador de dopamina; O gene DAT (ou SLC6A3)
- GSK3β, glicogênio sintase quinase-3 beta;
Um exemplo amplamente estudado é o receptor D4 (DRD4), que apresenta polimorfismos extensos na população humana. O alelo 7R, raro ou ausente em outros primatas, está associado, em nível populacional, a maior comportamento exploratório, busca de novidade e aumento do risco de traços relacionados ao TDAH. Esses efeitos são, em média, modestos, fortemente dependentes do contexto ambiental e não determinísticos, sugerindo um sistema dopaminérgico mais sensível à experiência e às contingências ambientais. Tal sensibilidade pode favorecer adaptação comportamental em determinados contextos, mas também ampliar o risco de desregulação em ambientes adversos (6,7).
O receptor D2 exibe diferenças na densidade e na responsividade funcional em regiões como o núcleo accumbens e o córtex pré-frontal dorsolateral, áreas críticas para o processamento de recompensa, a motivação e o controle inibitório. Variações na sinalização D2 influenciam o equilíbrio entre comportamento orientado à recompensa imediata e controle executivo, modulando vulnerabilidade a impulsividade, dependência e transtornos do controle do impulso (7,8).
Já o receptor D1 apresenta maior densidade relativa no córtex pré-frontal humano, especialmente em camadas associadas à tomada de decisão, memória de trabalho e ação orientada a metas. Essa configuração favorece planejamento, flexibilidade cognitiva e controle executivo fino. No entanto, ela também torna o sistema mais sensível a flutuações dopaminérgicas, como as observadas em estresse crônico, privação de sono, inflamação sistêmica ou envelhecimento, contextos nos quais tanto excesso quanto deficiência de dopamina podem comprometer o desempenho cognitivo (8).
Em conjunto, essas características indicam que o sistema dopaminérgico humano não é apenas mais complexo, mas também mais modulável e contextualmente sensível. Essa organização amplia a capacidade adaptativa e a diversidade comportamental, ao custo de maior vulnerabilidade a desajustes regulatórios em ambientes incompatíveis com as demandas metabólicas, emocionais e sociais que moldaram sua evolução.
4.2 Sistema serotoninérgico: regulação emocional e sensibilidade ao estresse
2 Sistema serotoninérgico: regulação emocional e sensibilidade ao estresse
Os receptores serotoninérgicos são estruturalmente altamente conservados entre primatas, mas exibem diferenças regulatórias relevantes no cérebro humano. Polimorfismos em regiões promotoras, como os associados ao receptor 5-HT1A, modulam a expressão de autorreceptores nos núcleos da rafe, alterando a liberação global de serotonina e influenciando a vulnerabilidade a quadros de depressão, ansiedade e comportamento suicida. Esses efeitos são, em média, pequenos a moderados, fortemente dependentes do contexto ambiental, do desenvolvimento e da interação com outros sistemas regulatórios, não configurando relações causais diretas (9).

Figura 5. Relationships between Mitochondrial Dysfunction and Neurotransmission Failure in Alzheimer’s Disease; Kan Yin Wong1, Aging and disease ›› 2020, Vol. 11 ›› Issue (5) : 1291-1316. DOI: 10.14336/AD.2019.1125 https://www.aginganddisease.org/EN/10.14336/AD.2019.1125
Figura 5. Relações entre disfunções mitocondriais e vias serotoninérgicas.
- TPH2 – síntese central de serotonina
- HTR1A – receptor serotoninérgico inibitório e autorreceptor
- HTR2A – receptor serotoninérgico excitatório cortical
- HTR2C – modulação serotoninérgica hipotalâmica e límbica
- SLC6A4 (5-HTT) – recaptação sináptica da serotonina
- MAOA – metabolismo e inativação serotoninérgica
- GSK3β, glicogênio sintase quinase-3 beta;
O receptor 5-HT2A apresenta densidade particularmente elevada no córtex pré-frontal humano, especialmente em camadas associadas à integração cognitiva, à flexibilidade mental e ao processamento de estados internos. Diferenças sutis de sensibilidade funcional — evidentes, por exemplo, na resposta a psicodélicos — sugerem ajustes finos em sistemas profundamente conservados, sem implicar a emergência de funções qualitativamente novas, mas sim a ampliação da responsividade e da plasticidade cortical (10).
O transportador de serotonina (SERT, codificado por SLC6A4) também apresenta polimorfismos relevantes, como o 5-HTTLPR, associados à modulação da resposta ao estresse e à reatividade emocional. Embora variantes semelhantes existam em outros primatas, sua distribuição populacional e impacto funcional diferem em humanos. Essas variantes não determinam desfechos clínicos de forma isolada, mas modulam a sensibilidade do sistema serotoninérgico a experiências adversas, especialmente durante períodos críticos do desenvolvimento (9,11).
Em conjunto, o sistema serotoninérgico humano caracteriza-se por alta conservabilidade estrutural combinada a maior sensibilidade regulatória. Essa organização favorece flexibilidade emocional e adaptação ao ambiente social complexo, ao custo de maior vulnerabilidade a contextos de estresse crônico, privação social e desregulação metabólica.
3 Sistema noradrenérgico: atenção, vigilância e custo do estresse
Os receptores noradrenérgicos α e β são estruturalmente altamente conservados entre primatas, refletindo o papel central da noradrenalina na vigilância, na atenção e na modulação do estado de alerta. No cérebro humano, contudo, refinamentos funcionais relevantes emergem sobretudo no modo como esse sistema é regulado e integrado a circuitos corticais superiores. O receptor α2A-adrenérgico desempenha papel central na memória de trabalho e no controle executivo, sendo particularmente importante no córtex pré-frontal, onde sua ativação favorece sinalização eficiente e redução do “ruído” neural (12).

Figura 6. Relationships between Mitochondrial Dysfunction and Neurotransmission Failure in Alzheimer’s Disease; Kan Yin Wong1, Aging and disease ›› 2020, Vol. 11 ›› Issue (5) : 1291-1316. DOI: 10.14336/AD.2019.1125 https://www.aginganddisease.org/EN/10.14336/AD.2019.1125
Figura 6. Relações entre disfunções mitocondriais e vias noradrenérgicas.
- DBH – conversão de dopamina em noradrenalina
- ADRA2A – receptor α2A adrenérgico (autorreceptor regulatório)
- ADRA1A – receptor α1 adrenérgico (excitatório)
- ADRB1 – receptor β1 adrenérgico
- SLC6A2 (NET) – recaptação sináptica da noradrenalina
- MAOA – metabolismo e inativação noradrenérgica
O locus coeruleus, principal fonte de noradrenalina cerebral, é estruturalmente semelhante entre primatas. No entanto, evidências neuroanatômicas e funcionais indicam que humanos apresentam maior número absoluto de neurônios noradrenérgicos e projeções proporcionalmente mais densas e extensas para o córtex pré-frontal. Essa organização amplia a capacidade atencional, a flexibilidade cognitiva e a adaptação a ambientes complexos e imprevisíveis (13).
Essa mesma arquitetura, entretanto, impõe um custo funcional. O sistema noradrenérgico humano opera como um modulador sensível do estado interno e do ambiente externo. Em contextos de estresse agudo, sua ativação favorece foco, vigilância e desempenho. Em contrapartida, a ativação crônica e persistente — comum em ambientes modernos caracterizados por demandas contínuas, privação de sono e estímulos constantes — está associada a prejuízo do funcionamento pré-frontal, aumento da carga alostática e maior vulnerabilidade a sintomas de ansiedade, exaustão cognitiva e declínio da flexibilidade comportamental (12,14).
Assim, o sistema noradrenérgico humano ilustra de forma clara o trade-off evolutivo entre eficiência adaptativa e vulnerabilidade: mecanismos que ampliaram a capacidade de atenção e resposta rápida ao ambiente também reduziram a margem de tolerância a estados prolongados de ativação, tornando o cérebro humano especialmente sensível ao estresse crônico e à sobrecarga regulatória ao longo da vida.
4 Sistemas GABAérgico e glutamatérgico: plasticidade prolongada e risco
Os receptores GABA_A exibem conservação estrutural excepcional entre primatas, refletindo a necessidade crítica de controle inibitório preciso em circuitos neurais altamente complexos. No cérebro humano, entretanto, observa-se maior diversidade funcional de subunidades desses receptores, bem como maior heterogeneidade de interneurônios GABAérgicos no córtex pré-frontal. Esse refinamento contribui para um ajuste mais fino do balanço entre excitação e inibição, sustentando funções cognitivas superiores, como controle executivo, flexibilidade cognitiva e integração de informações distribuídas. Ao mesmo tempo, essa organização está associada a maior vulnerabilidade a desbalanços excitatórios–inibitórios, observados em condições como esquizofrenia, epilepsia e transtornos do neurodesenvolvimento (15).
No sistema glutamatérgico, destaca-se a subunidade GluN2B dos receptores NMDA, associada a maior plasticidade sináptica e a janelas críticas prolongadas durante o desenvolvimento. Em humanos, a manutenção funcional dessa subunidade estende-se por períodos mais longos do desenvolvimento cortical quando comparada a outros primatas e a modelos não humanos, sugerindo uma estratégia regulatória distinta, compatível com plasticidade neural prolongada e maior sensibilidade à experiência (18).
Essa configuração, embora adaptativa do ponto de vista cognitivo, impõe um custo biológico relevante. A sinalização glutamatérgica sustentada, especialmente via receptores NMDA ricos em GluN2B, aumenta a entrada de cálcio e a demanda metabólica neuronal, ampliando a vulnerabilidade à excitotoxicidade e a insultos metabólicos durante fases críticas do desenvolvimento e em contextos de estresse energético, inflamação ou disfunção mitocondrial (18, 19).
Em conjunto, os sistemas GABAérgico e glutamatérgico no cérebro humano ilustram um princípio central da evolução neural: a ampliação da plasticidade e da capacidade adaptativa foi acompanhada por redução das margens de segurança fisiológica. O equilíbrio excitação–inibição tornou-se mais sofisticado e flexível, mas também mais sensível a perturbações, configurando um trade-off entre desempenho cognitivo elevado e maior risco de desregulação funcional ao longo da vida.
5 Sistema opioide: vínculo social, recompensa e dependência
O sistema opioide é estruturalmente conservado, mas funcionalmente refinado em humanos. Polimorfismos no receptor μ estão associados a variações na sensibilidade à dor, na resposta à recompensa e no risco de dependência, com efeitos em geral modestos e dependentes do contexto individual e ambiental.
Humanos também apresentam elevada densidade desses receptores em regiões corticais ligadas à avaliação de recompensa, afeto e comportamento social. Estudos funcionais demonstram liberação de opioides endógenos durante interações sociais, como riso, música e vínculos afetivos, sugerindo papel central desse sistema na coesão social e na cultura, características marcantes da espécie humana.
4.6 Integração funcional e custo adaptativo
6 Integração funcional e custo adaptativo
O impacto das diferenças receptoriais descritas nos sistemas neurotransmissores é amplificado pela escala e pela arquitetura do cérebro humano. Pequenas variações moleculares, quando distribuídas ao longo de redes sinápticas extensas e circuitos associativos altamente conectados, tornam-se funcionalmente relevantes. Além disso, a maturação receptorial humana é notavelmente lenta, permitindo profunda moldagem pela experiência, pela aprendizagem social e pela cultura, ao mesmo tempo em que estende períodos de maior vulnerabilidade ao longo do desenvolvimento.
Em síntese, o cérebro humano não se distingue por inovação neuroquímica radical, mas por uma amplificação regulatória, temporal e epigenética de sistemas neuroquímicos profundamente conservados. Essa estratégia evolutiva favoreceu inteligência abstrata, linguagem simbólica e transmissão cultural cumulativa. Contudo, ela também está associada a maior prevalência de transtornos psiquiátricos, dependências e fragilidades relacionadas ao estresse crônico e ao envelhecimento.
Do ponto de vista evolutivo e clínico, a singularidade humana reside nesse custo adaptativo: máxima flexibilidade funcional e elevada capacidade de aprendizagem ao longo da vida, ao preço de maior instabilidade potencial dos sistemas regulatórios. Trata-se de uma consequência direta de operar próximo aos limites da complexidade biológica, em sistemas altamente sensíveis ao ambiente, ao estado metabólico e ao contexto social.
Obs.: Polimorfismos genéticos em receptores de neurotransmissores, como DRD1 DRD2, DRD4, HTR1A, HTR2A, HTR2C, ADRA2, SLC6A4 (5-HTT) e OPRM1, apresentam efeitos modestos, dependentes de contexto e não determinam diagnósticos psiquiátricos. Testes genéticos axuliam, mas não devem orientar isoladamente escolhas terapêuticas sem avaliação clínica integrada, considerando história de vida, fatores ambientais, metabólicos e psicossociais.
Células da glia
O cérebro humano apresenta um perfil metabólico singular quando comparado ao de outros primatas antropoides. Embora represente cerca de 2% do peso corporal, ele consome aproximadamente 20–25% da energia basal total do organismo. Em outros primatas, esse consumo situa-se em torno de 8–10%, evidenciando uma diferença metabólica marcante (19, 20).
O sistema nervoso central é composto, além dos neurônios, pelas células da glia, que compreendem um conjunto diverso de células não neuronais — incluindo astrócitos (apoio metabólico), oligodendrócitos (recobrem os axônios/prolongamentos dos neurônios) e micróglia (células de defesa) — e que desempenham funções essenciais para o funcionamento cerebral (22). Longe de atuarem apenas como suporte estrutural, as células gliais regulam o metabolismo energético neuronal (24), participam da formação e manutenção das sinapses (20, 21), controlam o ambiente químico extracelular e viabilizam a comunicação eficiente entre regiões cerebrais distantes através da mielinização (20). Além disso, a glia exerce papel central na adaptação do cérebro ao longo da vida, modulando processos inflamatórios (23), a resposta ao estresse metabólico (22) e a plasticidade neural (20, 23), sendo particularmente relevante nos contextos de envelhecimento e vulnerabilidade cerebral (21, 22).

Figura 7. Perfil molecular da ELA. As células da glia interagem com os neurônios de diversas maneiras para manter a saúde do tecido neural, para o que é necessária uma citoarquitetura peculiar, como mostrado. Mecanismos moleculares e moléculas recentemente implicadas na fisiopatologia da doença do neurônio motor estão listados, de acordo com os tipos celulares. A ilustração detalha a organização funcional do tecido nervoso:
- Astrócitos: Estão ligados a vasos sanguíneos (capilares) e neurónios, ajudando na manutenção da barreira hematoencefálica apoio metabólico.
- Oligodendrócitos: Formam a bainha de mielina em torno dos axónios neuronais para acelerar a condução nervosa, apoio metabólico.
- Micróglia: Atuam como as células de defesa imunitárias residentes, monitorizando danos no tecido.
Artigo: The Concept of Glia (ou referências relacionadas com a história e funções da glia). Link Direto: SciELO – Arquivos de Neuro-Psiquiatria; https://www.scielo.br/j/anp/a/K4HpNmhFkLcDhjwCsmqdh7H/

Figura 9. Visão geral do papel dos processos epigenéticos na fisiopatologia dos transtornos relacionados ao estresse. Fatores ambientais, incluindo estresse na primeira infância, traumas infantis e eventos estressantes na vida adulta, contribuem para o desenvolvimento de transtornos relacionados ao estresse por meio da regulação epigenética direta ou interações gene-ambiente. Os mecanismos epigenéticos incluem alterações na estrutura da cromatina, modificações de histonas, modificações do DNA, alterações em RNAs não codificantes e modificações do RNA. Esses processos epigenéticos desempenham papéis cruciais em diferentes aspectos da fisiopatologia dos transtornos relacionados ao estresse.
Epigenetic regulation in major depression and other stress-related disorders: molecular mechanisms, clinical relevance and therapeutic potential; Minlan Yuan, et. Al.; Signal Transduction and Targeted Therapy volume 8, Article number: 309 (2023) https://www.nature.com/articles/s41392-023-01519-z
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